1) Resenha DO MÊS:

PETERSON. E. H. A Orientação Espiritual. In: Um Pastor Segundo o Coração de Deus. Rio de Janeiro: Textus, 2000, cap. 3, p. 135 a 182.

 

      Texto Produzido por   Leontino Farias dos Santos

 

Resumo : O texto é uma contribuição objetiva, para pastores de qualquer idade e qualquer tempo de ministério; trata da “orientação espiritual”, um tema considerado pelo autor de grande relevância, mas pouco explorado nos Seminários e mesmo na literatura teológica. O autor faz três abordagens (Sendo um Orientador Espiritual, Conseguindo um Orientador Espiritual e Praticando a Orientação Espiritual), que mostram a extensão e complexidade do assunto para o ministério pastoral.

            No primeiro enfoque, Peterson trata da pertinência da orientação espiritual, e lamenta que muitos desconhecem as implicações dessa orientação e não levam a sério esse desafio, na medida em que até a praticam, sem, contudo, levarem em conta o quanto poderiam ser mais eficazes no seu trabalho pastoral; e assim o autor diz: “Acontece que ninguém com quem converso rejeita deliberadamente o trabalho de orientação espiritual, nem fica muito tempo sem praticá-lo, de uma forma ou de outra. Ainda assim é uma atividade marginal, em sua maior parte. Ela esteve bem no centro do trabalho comum de todo pastor, mas em nossa época foi afastada para a periferia do ministério” (pág. 139).

            Ao justificar a importância do tema, Peterson diz que a orientação espiritual atende às necessidades silenciosas dos fiéis, tendo em vista que vivemos num mundo onde as pessoas têm diante de si sérios desafios em sua vida existencial e principalmente espiritual, e buscam desesperadamente, por caminhos estranhos e terapias duvidosas, a presença do sobrenatural em suas vidas; procuram por Deus. Enquanto isso, os pastores nem sempre reconhecem essas necessidades, improvisam o atendimento às suas ovelhas e centralizam o seu trabalho pastoral na Igreja, nos cultos, no púlpito, entre outros. Mas é preciso que se faça alguma coisa diferente. O pastor deve valorizar mais os detalhes individuais das situações vividas pelos fiéis, e toda e qualquer experiência por eles vivenciadas. E para viabilidade desse momento no ministério, é fundamental que o ministro se dedique “à oração com a mesma disciplina, atenção e discernimento que usa no preparo de palestras e sermões, compartilhando crises de doença e morte, celebrando nascimentos e casamentos, iniciando campanhas e despertando visões”, diz Peterson (p. 147). Ele chama ainda a atenção para o fato de que aquilo que julgamos “sem importância” no ministério, pode ser a mais relevante, significativa, e pode fazer a diferença no trabalho pastoral.

            No segundo enfoque (Conseguindo um Orientador Espiritual), o autor chama a atenção para a importância que há em um pastor ter um orientador espiritual para acompanhá-lo em seu trabalho. E diz que isso não é apenas importante como também indispensável. Chama a atenção para o fato de que o pastor, como autoridade sobre o seu rebanho, corre riscos, pois a posição de autoridade sempre é perigosa. No ministério, o pastor representa a autoridade de Deus ao proclamar a Palavra, na celebração dos sacramentos, diante das experiências de reconciliação, morte, casamento, entre outros. Essa necessidade e exigência têm a ver com o fato de que lidamos com a fé, que exige submissão do pastor à autoridade de Deus, a fim de que não faça as coisas por si ou para si, mas em nome de Deus e para Deus.

            O orientador espiritual para o pastor é necessário, na medida em que ele também é carente, tem necessidades existenciais, precisa estar espiritualmente fortalecido, ajudado por alguém que possa aferir com maturidade as suas práticas, encorajá-lo na difícil jornada de aconselhar, acompanhar, encorajar, consolar, saber ouvir e escutar fiéis em suas dificuldades. Peterson declara que ele mesmo precisou de orientador espiritual e foi buscá-lo, embora isso tenha lhe custado a necessidade de um esvaziamento, um despojamento de si, para deixar seu orgulho espiritual, e, com humildade, ouvir alguém e, assim, compartilhar com esse alguém, espontaneamente, as dificuldades, os desafios, as intenções, desejos de sua alma, para fortalecer o seu trabalho.

            Finalmente, Peterson aborda a prática da orientação espiritual e toma como exemplo a experiência fracassada de George Fox, que procurou orientação espiritual em cinco pastores e todos falharam. G. Fox procurava Deus e nenhum dos pastores que procurou percebeu isto, conforme sua narrativa, extraída de seu Diário.

            O primeiro pastor (Nathaniel Stephens) fracassou porque o conteúdo de suas conversas com George Fox, suas idéias a respeito da fé cristã, entre outras, eram repetidas pelo ministro em seus sermões dos domingos. O pastor conversava como “um intelectual diletante”. “Fox era seu depósito teológico de ilustrações” (Peterson). O orientador espiritual não deve propor uma discussão teológica para quem está procurando Deus.

            O segundo pastor (“Idoso de Mancetter”), ignorando as reais necessidades da ovelha à sua frente, disse a  Fox que ele deveria fumar e cantar salmos. O pastor não percebe aqui uma pessoa a ser orientada, “mas um consumidor de produtos espirituais”. Por não aceitar essa orientação, Peterson diz que o pastor o rejeitou.

            O terceiro pastor (“O Pastor que Morava Perto de Tamworth), considerado um homem experiente, também foi um desastre para Fox, na medida em que se revelou despreparado, sem técnica, habilidade e reputação adequada para o trabalho de orientador espiritual. Ele pode estar preparado para outras situações em outras esferas da vida, menos para a orientação espiritual. Aprende-se aqui, nessa experiência, que às vezes aprendemos técnicas que criam uma fachada de eficiência em espiritualidade, mas nem sempre eficazes para atender às necessidades de pessoas com problemas mais complexos e que querem, acima de tudo, um encontro com Deus.

            O quarto pastor, orientador de Fox foi Dr. Cradock. Este, a exemplo do primeiro desenvolveu o seu trabalho com perguntas sobre conhecimentos bíblicos, caminhando em seu jardim e irritou-se quando Fox, pisou num canteiro de flores e foi severamente advertido. A expectativa do pastor, foi a de que Fox não apenas deveria ter respostas certas como andar na direção certa. Aqui, teoria e prática corretas seriam o suficiente para a solução dos problemas complexos da fé, em direção a Deus!

            Finalmente, o quinto pastor (Macham), é o exemplo de um orientador espiritual ativista, com respostas prontas sobre o que deve ser feito, qualquer que seja a situação. Está sempre pronto para “dar um remédio e fazer a sangria”, algo ambíguo e não convincente para quem “precisava de um pastor que fosse seguro o bastante para absorver, refletir e tolerar a ambigüidade de seu desespero e tentação atribulados e forte para não fazer nada para ele e nem por ele” (Peterson).

Diante do acima exposto, Peterson destaca alguns procedimentos a serem evitados: 1. Que o orientador espiritual não deve ser indiferente ao que a pessoa efetivamente é, levando em conta seus problemas existenciais e espirituais; 2. É preciso não achar que em pouco tempo já sabemos quem é a pessoa e assim concluirmos a situação com diagnósticos apressados e superficiais. 3. Que desconsideremos o valor da oração no encontro com os fiéis; pois, muitas vezes, o que o fiel deseja, essencialmente, é ser levado à presença de Deus para a comunhão e ser abençoado por Ele.

 Em síntese, o texto é bom, objetivo, edificante.

           

 Conceitos chaves ou idéias centrais do texto :

            “O requisito básico para o orientador espiritual é simplesmente levar a sério o que já sabemos serem assuntos sérios – um sinal da graça aqui, um desejo de orar ali – e adaptar a agenda de trabalho às almas do povo, não aos pedidos que eles expressam”. (p. 142)

            “Nada em nossa cultura e muito pouco dentro das Igrejas encorája-nos a trabalhar na orientação espiritual”. (p.143)

            “Ser um orientador espiritual significa reparar no que é familiar, dar nome ao que é individual... Grande parte de nosso trabalho acontece nos detalhes individuais”. (p. 144)

            “As pessoas querem mais da fé, da vida, e de Deus, e é razoável que busquem a orientação de seus pastores, e elas não esperam até que estejamos nos púlpitos para olhar para nós e nos ouvir”. (p. 148)

            “É mais fácil dizer às pessoas o que...” devem fazer do que estar com elas, em companheirismo cheio de discernimento e oração, à medida que prosseguem”. (p. 149)

            “A necessidade da congregação, de receber orientação espiritual pessoalmente, não pode ser deixada à responsabilidade de livros, fitas cassetes ou vídeos. Esta é a verdadeira função dos pastores”. (p. 150)

Assuntos importantes que são desafios para a vida e ministério:

* O reconhecimento do pastor como um efetivo orientador espiritual;

* A relevância da autoridade da qual é investido o pastor para o desempenho da orientação espiritual;

* A necessidade de saber ouvir e escutar o fiel para um diagnóstico mais preciso de seus problemas;

* O valor da oração ou do espírito de oração na orientação espiritual tendo em vista a comunhão do fiel com Deus;

* A necessidade do pastor “esvaziar-se” para, com simplicidade, orientar as suas ovelhas;

* A necessidade de um orientador espiritual para o pastor.

Divergências ou discordâncias com o texto:

            Não há divergência substancial.

Três questões suscitadas no próprio texto ou inferidas dele, SÃO relevantes para o desenvolvimento do ministério pastoral na IGREJA PRESBITERIANA INDEPENDENTE do Brasil:

            1. Enfatizar o valor, pertinência e necessidade de aprofundamento da orientação pastoral na prática pastoral;

            2. Incluir nas disciplinas relacionadas com a prática pastoral, no Seminário, o tema “orientação espiritual”;

            3. Discutir sobre a validade e formalidade de um “orientador espiritual” para os pastores.

 

 

 

 

 

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