Artigo do Mês:  " ESQUIZOFRENIA "

Leontino Farias dos Santos

O que é – O termo esquizofrenia deriva de duas palavras gregas (schizein + phrenós) que, juntas, compostas, têm sido utilizadas com o significado de  “cisão das funções mentais” (Bleuler, 1911). Também tem sido identificado como “demência precoce”, incoerência do pensamento, da afetividade e da ação, perda do sentido de realidade, com situações em que o indivíduo se torna ensimesmado ou praticante de uma atividade delirante. É um tipo de sofrimento psíquico grave, caracterizado pela alteração no contato com a realidade (psicose). É um transtorno mental severo, que pode atingir pessoas de qualquer idade, gênero, classe social em qualquer contexto social.

A esquizofrenia caracteriza-se por apresentar sintomas como alucinações visuais, sinestésicas (com cruzamento de sensações) ou auditivas, delírios, fala desorganizada (de difícil compreensão), catatonia e/ou sintomas depressivos. Em seus delírios e alucinações, o esquizofrênico tem uma visão distorcida da realidade. Há os que têm a sensação de que está diante de algum tipo de perseguição (delírio persecutório), sendo observado por pessoas que tramam alguma coisa contra si. Essas alucinações independem de um estímulo externo. Há os que ao se sentirem perseguidos, por exemplo, ouvem vozes que lhe dão ordens, de forma imperativa, capazes de levá-lo ao suicídio.

Sintomas. Especialistas afirmam que existem dois tipos de sintomas. Os produtivos (delírios e alucinações), como vimos acima, e os negativos.

Os sintomas produtivos estão mais presentes com maior visibilidade na fase mais aguda do transtorno, com perturbações mentais consideradas “muito fora” do normal, tidas como se fossem “acrescentadas” às funções psico-orgânicas do indivíduo. Entre as perturbações estão delírios, percepções irreais de audição, visão, paladar, olfato ou tato, pensamento e discurso desorganizado com elaboração de frases sem sentido, invenção de palavras, ansiedade excessiva, alterações visíveis do comportamento,  agressividade.

Quanto aos sintomas negativos, são os considerados como mais resistentes ao tratamento e que são assim reconhecidos pela diminuição dos impulsos e da vontade e por achatamento afetivo. Geralmente a pessoa assim afetada perde a capacidade de entrar em ressonância com o ambiente, e de sentir alegria ou tristeza condizentes com a realidade ao seu redor. Esquizofrênicos nessa situação tornam-se apáticos, sem iniciativa, totalmente indiferentes do ponto de vista emocional, pobreza do pensamento.

Origens e causas da esquizofrenia. A esquizofrenia geralmente tem início durante a adolescência ou na vida adulta, podendo mesmo ter início em idade mais avançada. No começo, de acordo com a situação de cada indivíduo, é possível que ele tenha a sensação de que algo diferente está acontecendo em sua vida, sem, contudo, saber o que é, sob tensão e ansiedade. Pode ser que comece com a sensação de que está sendo perseguido, expressando essa situação de maneira delirante.

Várias teorias foram desenvolvidas para explicar as causas da esquizofrenia. A teoria genética, parte do princípio de que genes podem estar envolvidos, levando em consideração a possibilidade de que fatores ambientais possam desencadear o transtorno. Significa que, havendo um caso de existência de um esquizofrênico na família, a probabilidade de  que alguém venha a sofrer desse transtorno é maior. As estatísticas, contudo, não confirmam tal afirmação. 81% dos afetados por esse transtorno não têm qualquer ligação com algum familiar em primeiro grau; e 91% não têm qualquer familiar, de qualquer grau, atingido, afirma Gottesman (1991).

A teoria neurobiológica, afirma que a esquizofrenia é causada por alterações bioquímicas e estruturais do cérebro, razão pela qual a maioria dos neurolépticos (antipsicóticos), isto é, substâncias utilizadas para combater as manifestações comportamentais que incluem transtornos mentais, atua precisamente nos receptores da dopamina no cérebro, reduzindo a produção endógena deste neurotransmissor. Os que defendem essa teoria afirmam que é por isso que alguns sintomas desse transtorno podem ser desencadeados por fármacos que aumentam a atividade dopaminérgica.

Uma teoria que a princípio pareceu bastante plausível é a que se refere ao comportamento familiar em relação ao indivíduo. Dependendo da maneira como os familiares se comunicam ou das condições de convivência e da  estrutura de vida em família, poderia ocasionar o surgimento, por exemplo, da “mãe esquizofrenogénica” (possessiva, dominadora), como geradora de personalidades esquizofrênicas. Contudo, trata-se de uma teoria sem embasamento científico comprovado.

Várias teorias na área da psicanálise apontam para a fase oral da criança em seu desenvolvimento emocional como causadora da esquizofrenia. Esta é uma fase na qual o indivíduo, quando não gratificado oralmente no período de sucção (amamentação) no contato com o seio materno, pode sofrer várias conseqüências em seu desenvolvimento, entre elas a possibilidade de um quadro de melancolia (psicose maníaco-depressiva).

É preciso reconhecer, com humildade, que nenhuma dessas teorias têm atendido satisfatoriamente à questão da origem. Do ponto de vista científico essas teorias têm sido vistas como hipóteses que precisam ser melhor analisadas e confirmadas.

Possibilidades de superação. No passado o tratamento da esquizofrenia era muito precário, com medicamentos que produziam fortes efeitos colaterais e através de eletrochoques. Historicamente, data de 1950 a introdução do primeiro medicamento antipsicótico, que chegou a fazer tanto sucesso, que chegou a esvaziar hospitais, considerados asilos para doentes mentais. Constatou-se, contudo, que muitos pacientes (75%) que saíam do hospício geralmente retornavam porque os problemas mentais eram agravados.  Vale ressaltar que na atualidade os medicamentos antipsicóticos evoluíram em termos de qualidade, reduzindo, inclusive, os efeitos colaterais, aumentando assim a aderência do paciente ao tratamento e sua continuidade, mesmo após o desaparecimento dos sintomas.

Além do uso de medicamentos recomendados por psiquiatras, terapias alternativas ou paralelas têm sido recomendadas. Muitos médicos aconselham que o paciente procure também a ajuda de um psicólogo ou psicanalista, terapias ocupacionais (individual ou em grupos), a fim de que facilitem a reintegração social do indivíduo. É indispensável a intervenção familiar, e recomendável a arte-terapia, com a musicoterapia, por exemplo, e a psicopedagogia. É fundamental que o tratamento comece tão rápido quanto possível, logo que os primeiros sintomas apareçam. A falta de tratamento por longo tempo pode dificultar a superação do transtorno, agravando-o.

Em “Psicoterapia individual na esquizofrenia”, o especialista em transtornos mentais W. L. Bruscato aponta, alguns objetivos a serem atingidos no processo psicoterapêutico: interromper a perda da capacidade mental mantendo o paciente em contato com a realidade; restaurar a capacidade de cuidar de si e de administrar sua vida, encorajando o máximo de autonomia para promover o melhor ajustamento pessoal, psicológico e social possível; diminuir o isolamento; reconhecer e reduzir a natureza ameaçadora dos eventos da vida, para os quais existe uma sensibilidade particular; conscientizar o portador sobre a realidade de seus recursos e limitações, tanto ajudando a descobrir e realizar seu potencial, quanto ajudando na aceitação de suas limitações; aumentar suas defesas diante de situações estressantes, liberando recursos que, eventualmente, estejam obstruídos pela psicose e desenvolver fontes alternativas para a solução de seus problemas; recuperar e promover a auto-estima, a auto-imagem e autoconfiança, proporcionando contínuo progresso; estimular a independência, os cuidados consigo mesmo em questões de higiene e capacitar o paciente para as atividades da vida.

A história tem mostrado vários exemplos de superação. Alguns nomes podem ser lembrados: Emygio de Barros (1865-1986), que deixou um acervo de 3.000 obras de pintura, resultado de um processo de arte-terapia; de igual modo Carlos Pertus (1910-1977), que deixou um acervo de 21.500 obras; Adelina Gomes (1916-1984) e Fernando Diniz (1918-1999), cujas obras foram expostas no Brasil e no exterior, depois de um período de terapia ocupacional; o matemático norte-americano, John Nash, que foi ganhador do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 1964, entre muitos outros.

Um exemplo clássico de tratamento de esquizofrênicos com terapia ocupacional. Na história da psiquiatria brasileira existem alguns casos que se tornaram clássicos tendo em vista a repercussão alcançada em relação aos métodos adotados no seu tratamento. Um deles é o de Fernando Diniz, um negro, baiano, que morava no Rio de Janeiro na época em que foi preso pela polícia, sob a acusação de falta de pudor, quando andava sem roupas em uma das praias da cidade. Depois de seis meses considerado um infrator da lei, foi encaminhado para um hospício, que o tratou com métodos tradicionais, violentos. Os métodos tradicionais incluíam tratamento com choque elétrico e medicamentos fortes para acalmar o paciente.

Nise da Silveira (1905-1999), uma psiquiatra alagoana que morava no Rio de Janeiro, deu início, com esse e outros casos, a um tratamento não convencional, através do desenvolvimento da terapia ocupacional, apoiada nos conceitos teóricos da psicologia analítica de Carl Jung, revoltada com a violência dos métodos da época. Negou-se a utilizar o aparelho de produzir choques elétricos para “amansar” os pacientes, introduzida no Centro Psiquiátrico Nacional, recém-inaugurado, que introduzia uma prática considerada moderna, uma referência mundial, para tratamento de pacientes com transtornos mentais. Esse tratamento produzia o que se chamou de “eletroconvulsoterapia”, utilizado em um hospital de referência no Brasil. Os psiquiatras de sua época, porém, receberam os eletrochoques com muito entusiasmo, sem questionamentos!

Nise da Silveira, indignada com as práticas tradicionais, preferiu uma metodologia nova, diferenciada, que não ferisse a dignidade humana. Seu método, na prática, partia do princípio de que os internos em hospitais psiquiátricos, expressavam suas emoções com atividades verbais e não verbais, e os sintomas encontravam oportunidades para se exteriorizarem no mundo, desde que em um ambiente digno, cordial, afetivo, centrado num monitor sensível. A pintura e a modelagem, então, destacam-se, na experiência de Nise da Silveira, dentre as ações desenvolvidas, através das quais tornou-se possível o acesso ao mundo interno dos esquizofrênicos. Desta forma, as qualidades terapêuticas deram forma às emoções tumultuosas, vindo a despotencializar as figuras ameaçadoras presentes na mente dos pacientes, com o objetivo do movimento em direção à consciência, como verdadeiros instrumentos de encontro com a ordem interna do indivíduo.

O trabalho de Nise da Silveira, por exemplo, fez de Fernando Diniz, um esquizofrênico, uma referência em termos de bons resultados. Silveira trabalhou com criatividade, ao considerar aspectos significativos na relação arte e vida, entendendo que o conceito de vida deve ser preservado no paciente esquizofrênico através da terapia ocupacional com o uso do barro, madeira, palha, tinta a óleo, variedade e simbolismo de cores e textura em tecidos, jogos, danças, em espaço diferenciado que modificava o caráter agressivo dos métodos conservadores. Com essa prática, outros pacientes desenvolviam a imaginação, a criatividade e conseguiam um sentimento de liberdade, capaz de proporcionar a alegria de viver, lançando fora a apatia, a agressividade, desejos de morte. O sofrimento interior e a angústia que caracterizavam a vida de Fernando Diniz, foram transferidos para obras de arte através da pintura e da escultura, levando-o a participar de exposições no Brasil e no exterior, com resultados jamais imaginados se continuasse sendo tratado com eletrochoques e medicamentos de fortes efeitos colaterais.

 O cultivo da espiritualidade. Esse procedimento não dispensa ou invalida qualquer esforço terapêutico, seja com a indispensável participação do psiquiatra no tratamento, ou de outras abordagens terapêuticas. É importante destacar que a esquizofrenia não é um transtorno mental de caráter espiritual; isto é, não é uma decorrência da presença de espíritos diabólicos na vida da pessoa. Também não resulta de comportamentos pecaminosos do indivíduo. Qualquer pessoa, independentemente de sua cultura, fé, religião, ideologia, classe social, gênero está sujeita a um transtorno mental.

É importante destacar no pensamento de Jung, contudo, seu reconhecimento sobre a importância do fenômeno religioso na vida da pessoa para a saúde mental. A espiritualidade, mais do que uma expressão do fenômeno religioso, quando bem conduzida, pode contribuir positivamente para a superação de qualquer transtorno, uma vez que pode facilitar a ressignificação do indivíduo e, desta forma, despertar nele valores espirituais capazes de proporcionar um novo sentido para a vida. Entre esses valores, experiências afetivas e de respeito à dignidade são capazes de contribuir decisivamente para a recuperação do paciente. A carência desses valores pode embrutecer e tornar o paciente mais agressivo,  ensimesmado, deprimido. Uma prática religiosa que enriqueça a espiritualidade, revestida de afeto, paciência, fé em Deus e esperança cristã, certamente atuará como fator decisivo para a reintegração do paciente com transtorno mental na vida social.

  

ARTIGO DO MÊS ANTERIOR:

 

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA - O IMPACTO NO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA

 

Rev. Leontino Farias dos Santos

 

            A criança é sempre muito sensível em relação a tudo que lhe diz respeito. No caso da violência, qualquer que seja sua origem, a repercussão de situações desconfortáveis no desenvolvimento infantil pode ser traumatizante, com conseqüências inimagináveis em relação ao seu futuro. Otto Rank (1884-1939) ao referir-se ao “trauma do nascimento”, já sinalizava para o fato de que ao nascer, a criança, dependendo do ambiente e de quem a acolhe, pode carregar consigo seqüelas de grande repercussão em seu desenvolvimento emocional. John Bowlby (1907-1990), ao referir-se à violência causada às crianças após a II Guerra Mundial, com o “trauma da separação” ao serem deixadas em creches, aponta conseqüências desastrosas que lhes ocorriam. Entre essas conseqüências, inúmeros casos de delinqüência juvenil.

            Quando falamos de violência doméstica e o impacto que ela pode causar no desenvolvimento infantil, não se pode esperar que a situação das crianças nessa condição seja diferente. Muitas crianças, não só  têm sido testemunhas de violências entre os pais, entre os pais e os demais filhos, entre os irmãos, mas também contra elas próprias. Este tipo de violência é mais comum diante de crianças de 0 a 9 anos de idade, e até entre adolescentes de 10 a 19 anos de idade, entre diversos fatores nem sempre identificáveis.

O que se deve entender por violência doméstica. São todos os episódios que acontecem dentro da família, caracterizados por agressões entre familiares, gritos, empurrões, estrangulamento, pancadas, práticas sexuais explícitas diante de crianças ou mesmo agressões físicas e abusos sexuais contra elas. Certos castigos aplicados à criança, pelos pais, ainda que sejam com a intenção de educar, instruir, ensinar (deixar a criança de castigo, sem refeição, de joelhos, sem roupas, etc) também são considerados  violência. Ao  presenciarem a violência doméstica, as crianças correm o risco de enfrentar problemas psicossociais, aterrorizando-as e perturbando significativamente sua socialização, com maus-tratos também psicológicos.

Formas de violência doméstica contra a criança. Didaticamente tem sido comum classificar a violência doméstica quanto as formas como:  a) Violência física – caracterizada de forma intencional, deliberada, não acidental, praticada pelos pais, responsáveis, familiares ou pessoas próximas, tendo como objetivo ferir, provocar danos capazes até de levar à morte, deixando ou não marcas evidentes dessa situação. b) Violência sexual – resultante de um jogo sexual, hetero ou homossexual, praticado por alguém, um adulto, com a intenção de estimular a criança sexualmente, ou utilizá-la para obter satisfação sexual.  Neste caso, incluem-se práticas como carícias, manipulação da genitália, mama ou ânus, o voyerismo (pelo simples prazer de ver como a criança se comporta diante desses estímulos), pornografia, exibicionismo, até o ato sexual com ou sem algum tipo de penetração.

De acordo com o Núcleo de Estudos da Violência contra Crianças e Adolescentes da Sociedade de Pediatria de São Paulo (2007), a violência sexual pode ter diferentes contextos de ocorrência, com características específicas quanto a demanda, onde a relação entre o agressor e a criança é o principal determinante da forma como os casos ocorrem. Há o abuso sexual extra-familiar, com agressor desconhecido; há o abuso sexual extra-familiar com o agressor conhecido, que se dá de forma gradual, cada vez mais intensa, acompanhado de ameaças verbais ou sedução, fazendo com que a criança fique em silêncio por medo ou vergonha; há o abuso sexual intra-familiar, que ocorre entre os membros da mesma família (pode incluir pai, irmãos, tios, avôs), dentro do ambiente doméstico ou fora dele.

c) Violência psicologia – caracterizada por toda forma de submissão da criança aos pais ou responsáveis através de agressões verbais, humilhação, desqualificação, discriminação, depreciação, culpabilização, responsabilização excessiva, indiferença ou rejeição. Também quando a criança é utilizada para atender às necessidades psíquicas de um adulto, é um outro fator. Tudo isso representa maus-tratos capazes de causar danos ao desenvolvimento psicossocial da criança. d) Negligência – quando há omissão de quem está responsável pela criança em prover as necessidades básicas para o seu desenvolvimento integral. Exemplos de negligência são privação de medicamentos, de alimentos, de roupas, desinteresse pela educação escolar, descuido com a higiene da criança. e) Síndrome de Munchausen por Transferência – quando a criança é conduzida para cuidados médicos por causa de sintomas inventados pelos pais; trata-se de comportamento que impõe sofrimentos físicos a criança, com a exigência de exames desconfortáveis, uso de medicamentos de gosto desagradável, capazes de causar danos psicológicos de difícil solução. f) Bulling – é um tipo de violência, mais comum entre adolescentes, praticada nas escolas e incentivadas nas redes sociais, como a produzida pela Internet.

Fatores determinantes da violência doméstica. Geralmente as pessoas que produzem a violência doméstica encontra motivos que aparentemente seriam justificáveis. A princípio, há os que dizem que certas práticas são justificáveis, porque na sua origem têm como fundamento boas intenções, como a disciplina e a educação. São adultos que dizem precisar do controle da criança para que ela se comporte bem. Para tanto, usam táticas de coerção, abuso emocional e psicológico para lidar com crianças consideradas “abusadas”. Esse tipo de argumentação torna sutil o limite sobre o que é ou não uma prática violenta.

Entre os principais agressores estão os pais ou quem os represente nos cuidados em relação às crianças, cujo vínculo quanto a sua qualidade, pode facilitar a violência. Dependendo dos vínculos familiares e a situação da família,  pode ser que os pais descarreguem nos filhos suas amarguras, suas frustrações na vida conjugal, na vida financeira, ou sua insegurança em relação ao futuro, culpando-os, inclusive, por situações adversas. Nessas condições, pode ser que os filhos se tornem um peso, uma preocupação a mais que poderia ser evitada. Depende também da personalidade do agressor, da maneira como foi educado na infância, das violências que sofreu. Assim, a violência praticada contra os filhos pode ser a reprodução de suas experiências anteriores, como forma de compensar ou por achar que o modelo aplicado à sua educação, na infância, é o que deve ser repetido na formação dos filhos.

Não se pode ignorar que as condições sociais, relacionadas à falta de emprego, à péssima qualidade de vida, os limites da vida financeira da família, a baixa escolaridade dos integrantes familiares, entre outros, podem desencadear agressões físicas, negligência, abusos psicológicos; nesses casos, a agressividade pode ser um escape.

Nos abusos sexuais, vários fatores são determinantes. Um deles está relacionado à situação de pobreza, vida promíscua da família. A miséria econômica, moral e espiritual colaboram. Em muitas casas as condições de vida são precárias. Pouco espaço para muita gente dormir no mesmo lugar; muitas meninas quando são sexualmente abusadas por padrastos, irmãos, tios, avós, geralmente isso se dá porque, dormindo todos num mesmo cômodo da casa, uns sobre os outros, o ambiente facilita a promiscuidade.

Há casos doentios que têm sido determinantes dos abusos sexuais.  Nos casos incestuosos ou de pedofilia, como portadores de distúrbios mentais poderão provocar esse tipo de violência. A pedofilia, é uma psicopatologia, uma perversão sexual com caráter compulsivo e obsessivo. Define-se pela atração erótica por crianças de ambos os sexos. Essa atração pode ser elaborada como fantasias ou se materializar em atos sexuais com meninos ou meninas. Muitos pedófilos sofreram violência sexual quando crianças; ou, de outra forma, quando meninos, se não sofreram violência sexual, mas tiveram irmãs que sofreram tais constrangimentos, esses podem-se tornar agressores.

Consequências. Como toda criança é extremamente sensível do ponto de vista emocional, tudo que lhe ocorre em termos de relacionamentos, pode produzir conseqüências desagradáveis. Se a criança tiver diante de si um ambiente de carinho e acolhimento, poderá entender com palavras e gestos comedidos o que se espera de seu comportamento; poderá tornar-se amável, carinhosa. Contudo, diante de pais ou adultos agressivos, poderá sofrer danos que resultarão na idade adulta em homens ou mulheres violentos, depressivos ou medrosos, repetindo-se assim nesse adulto, a forma como foi criado.

A violência doméstica prejudica a saúde física e mental da mulher, gerando também o impacto de afetar negativamente a saúde da criança. Um estudo publicado pelo BID, concluiu, depois de uma análise de 83.000 dados estatísticos de cinco países da América Latina e Caribe, que representa 26,3 milhões de mulheres, “que há uma relação negativa entre a violência doméstica e a saúde da criança. Os efeitos começam durante a gravidez, tendo em vista o fato de que as mulheres grávidas quando vítimas de violência doméstica têm menos probabilidade de realizar as necessárias cinco visitas pré-natais”, a um médico, diz o estudo. Os resultados em vários outros estudos têm mostrado que o impacto da violência doméstica afeta o desenvolvimento infantil e o futuro da criança, comprometendo, não apenas a vida da criança, como o desenvolvimento econômico e social de um povo.

Considerando as conseqüências físicas, os resultados de outros estudos têm mostrado que a violência doméstica até pode, em casos extremos, determinar a morte da criança; mas esse tipo de violência também pode gerar ansiedade, transtornos depressivos, alucinações, baixo desempenho escolar, alterações na memória, sérias conseqüências emocionais, sociais, além de comprometer o futuro da criança, com possibilidade até de tentativas suicidas.

 Na vida adulta a criança também poderá desenvolver o interesse por substâncias psicoativas, por bebidas alcoólicas, outras drogas e a iniciação precoce na atividade sexual, tornando a menina mais vulnerável à gravidez precoce, à exploração sexual e à prostituição. Também enquanto criança, o indivíduo, em fase de formação de sua personalidade e do entendimento do sentido de família e proteção, tem como modelo para si, os adultos com os quais se relaciona, e os valores que lhe ajudarão a formar os conceitos morais que lhe servirão de referências em toda a sua vida adulta.

A violência doméstica que é praticada diante da criança ou contra ela, poderá desestruturar a base da formação física e psíquica desse indivíduo e toda a valorização de si mesma e dos outros com os quais virá a conviver. Essa experiência desastrosa deixará marcas profundas que lhe darão uma visão de mundo e da sociedade deturpados. Os valores fundamentais da família (amor, carinho, respeito) poderão ser ignorados ou distorcidos, comprometendo assim os valores também básicos da sociedade, com a progressão da violência de maneira global, sem respeito à vida e ao próximo.

O caminho a seguir. Como se percebe, a criança vítima da violência doméstica está em situação de risco, mesmo quando não sofre qualquer abuso e apenas presencia agressões entre os familiares. Algumas evidências sugerem que o risco maior é para crianças mais jovens, em virtude de suas limitações para a compreensão de conflitos.

Reconheçamos que muitas violências são encobertas. Muitos têm medo de denunciar episódios de violência cometidos pelos que deveriam proteger as próprias crianças, tais como os pais, familiares, amigos, conhecidos, cuidadores e outras pessoas investidas de alguma autoridade. Reconheçamos que há uma certa aceitação social da violência utilizada com a justificativa de “educar”. De igual modo, faz-se necessário que os serviços de escuta da sociedade sejam acionados (disque-denúncia, delegacias, serviços de saúde e assistência social, escolas, conselhos tutelares, a própria comunidade.

Todos nós podemos contribuir para a cultura da paz. Todos, como cuidadores, podemos desenvolver ações de sensibilização e mobilização na defesa de crianças em situação de risco. Entre essas ações, posturas proativas, debates, orientações diretas às crianças, denúncias, quando for o caso. Todos temos, para ações concretas, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e outros aparatos legais à disposição.

A Igreja, em particular, deve estar entre os segmentos de vanguarda, para cumprir o preceito bíblico de amparar o pobre e o oprimido, a criança, entre os desamparados da sociedade.

 

VEJA AINDA O ARTIGO DO MÊS ANTERIOR:

 

 

"LIDANDO COM O PROBLEMA DA “MÃE AUSENTE” NO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA

 

Rev. Leontino Farias dos Santos

 

         Tem sido consenso a idéia de que a presença da mãe é fundamental no desenvolvimento da criança. É quase inimaginável a possibilidade dessa ausência. Todavia, principalmente no tipo de sociedade em que vivemos, essa possibilidade tem sido cada vez mais uma realidade lamentável. Várias situações têm determinado a existência desse problema. Diferentes aspectos podem ser reconhecidos e responsabilizados pela possibilidade da “mãe ausente” no desenvolvimento infantil. Ninguém nega que o vínculo afetivo entre mãe e filho é determinante para o desenvolvimento social e emocional da criança.

Um retrospecto histórico

 Fazemos algumas considerações que envolvem o bebê e seu nascimento, com reflexos em toda a vida da criança. Destacamos, a princípio, como os bebês foram considerados no século XIX, sob a influência de crenças compartilhadas pela sociedade em geral. As crianças recém-nascidas eram comparadas a bezerros e potrinhos que já nascem em um estado mais avançado de desenvolvimento. Comparava-se os bebês inferiorizando-os em relação a animais irracionais, porque estes já nascem com a capacidade de andar imediatamente, enquanto o bebê humano era considerado incompetente. Posteriormente, psicólogos mais avançados perceberam que não há como comparar indivíduos de natureza tão diferente. Moura, em estudos que organizou publicado sob o título “O bebê do século XXI e a psicologia em desenvolvimento (2004), mostra, consistentemente, competências e adaptações peculiares ao ser humano quando de seu desenvolvimento a partir do nascimento e de como essa interação se dá em suas relações com os pais, presentes nas práticas de cuidado.

            Consideramos ainda que também durante o processo de gestação, fatores pré-natal, referentes ao ambiente, podem influenciar o crescimento e o desenvolvimento da criança: a idade materna, a nutrição da mãe, o uso de álcool, drogas, nicotina e radiações que são capazes de gerar inúmeras conseqüências negativas ao feto. Esses aspectos, quando observados, já são  determinantes em relação ao futuro do indivíduo em seu desenvolvimento e a situação pode ser agravada, comprometida, se a separação bebê-mãe  vier a ser efetivada

Acrescentamos, a propósito, mais um fator que pode comprometer o desenvolvimento infantil, a privação materna. Lembramos fato recente, uma das conseqüências da II Guerra Mundial, quando muitas cidades da Europa foram devastadas. Após a guerra, surgiu a necessidade de um esforço concentrado no sentido de reorganização de produção e construção das cidades que foram destruídas pelo grande conflito. Para viabilização desse processo, foram criadas creches para que as mulheres pudessem deixar os filhos e lhes fosse reservado uma parte de seu tempo para, juntamente com os homens, pudessem trabalhar na reconstrução da Europa.

            Especialistas, tanto na área da psicologia como em medicina, previram resultados desastrosos para essa experiência de separar crianças de suas mães e serem colocadas numa creche, nem sempre adequadamente qualificada. Nessa previsão, imaginaram que sérios problemas surgiriam na formação do caráter dessas crianças. Tal fato levou a Organização Mundial da Saúde a tomar providências. Contribuiu para isso um artigo do psiquiatra, psicólogo e psicanalista inglês John Bowlby (1907-1990), publicado em 1951, que analisou com propriedade os efeitos desastrosos da separação e o desenvolvimento infantil nas creches e instituições hospitalares.

            No trabalho de Bowlby ficou constatado que a criança, para ter um desenvolvimento normal, precisa, nos primeiros anos de vida, de uma relação tão próxima quanto possível com a mãe ou com uma mãe substitutiva de maneira permanente, principalmente nos três primeiros anos de vida. A pesquisa de Bowlby foi baseada em experiências com crianças delinqüentes e sem afeto que viviam nas ruas das cidades europeias, no período pós-guerra, que resultou num substancioso relatório sobre a saúde mental, para a Organização Mundial da Saúde, publicado em 1951 sob o título “Cuidado Materno e Saúde Mental”, publicado em português.

            A “Teoria do Apego”, desenvolvida, posteriormente por Bowlby, e outros, em seguida, justifica claramente a atenção que se deve dar à separação da criança em relação a mãe, e as conseqüências que isso traz para o desenvolvimento emocional e cognitivo do indivíduo.

 

Teorias sobre a criança  e seu desenvolvimento

O “trauma do nascimento”

            Desenvolveu-se no fim do século XIX, a teoria do “trauma do nascimento” (1923), de autoria de Otto Rank (1884-1939). Esta teoria foi determinante para o rompimento entre Freud e Rank. De acordo com essa linha de pensamento, o indivíduo, quando nasce, vive o seu primeiro estado de angústia, modelo este que será responsável por toda a sua angústia posterior ao longo da vida.

 De acordo com Rank, os sintomas fisiológicos que se produzem durante o parto são fundamentais para o que possa acontecer com a criança no futuro. Ele cita entre os produtos, a asfixia transitória, taquicardia, diarréia, opressão, entre outros. Seguem-se aqui três traumas sucessivos ligados a separações. Rank afirma que o primeiro trauma é particularmente significativo porque se dá com a separação da criança do útero materno (lugar imaginariamente confortável), e que todas as situações subseqüentes que podem produzir  “angústia”, à qual também chamou de “ansiedade primordial” e que  se relacionam com essa situação, diante das lembranças agradáveis do estado intrauterino.

Depois do acima visto, a separação do seio materno, equivale ao segundo trauma depois do nascimento; o terceiro trauma é o temor da castração (que corresponderia à separação de uma parte do corpo). Estes, entre outros eventos, podem ser determinantes para o sofrimento da criança ao que Rank chamou de “repressão primordial”. Isto porque, todas as vezes que o indivíduo tenta restabelecer o “prazer primordial”, referente à sua vivência no útero materno antes do nascimento, vive uma situação de ansiedade, de angústia, tendo em vista o “trauma da separação” que o privou do “paraíso perdido”, isto é, do útero materno. E assim o indivíduo desanima, sofre e desenvolve o sentimento de perda!

Pelo que se percebe nesta teoria, “a separação” da mãe, seria determinante como origem das neuroses no indivíduo. Ele se torna neurótico exatamente pelo fato de não conseguir superar o trauma primordial.

 

Melanie Klein e a teoria do “seio bom” e do ”seio mau”

Melanie Klein e seus discípulos retomou a teoria de Rank ao afirmar que os sucessos dos seis primeiros meses de vida correspondem às origens das futuras características psicológicas do indivíduo. Ocupou-se da vida emocional da criança, dedicando-se especialmente a estudos sobre o primeiro ano de vida e deu especial atenção às sensações a respeito da ansiedade, defesas e relações com objetos que nessa etapa são produzidos.

A experiência da nutrição e a relação da criança no primeiro ano de vida com a figura da mãe, foi de grande importância para Melanie Klein. Considerou esse primeiro momento, na vida da criança como o de relações objetais. Considera que nessa relação com a mãe, o indivíduo pode sentir que está se relacionando com um “seio bom” (quando se sente satisfeito, gratificado na amamentação – a fonte do amor) ou com um “seio mau” (quando não se sente satisfeito na amamentação – a fonte do ódio). Neste caso, a criança encontra aí a sua fonte de frustração. As experiências gratificantes ou de frustrações, são portanto, fortes estímulos para os impulsos libidinosos ou os de frustração, fortes estímulos de agressão, de ódio.

A figura de “seio bom” (protótipo de objetos bons) ou de “seio mau” (protótipo de objetos maus), pode estar relacionada à mesma mãe ou a quem a represente, ocasionalmente. A idéia de seio “bom” ou “mau”, está relacionada não apenas ao seio materno propriamente dito, mas a toda e qualquer situação que sirva de “amamentação” para a criança: um abraço, um carinho, um beijo, um sorriso, um olhar cheio de afeto (que podem ser fontes do bem) ou a ausência de tudo isso (fontes do mal). A mãe, portanto, pode ser a própria mãe ou quem estiver em seu lugar no cuidado da criança. Todavia, diz Melanie Klein, a relação com a mãe é fundamental. Sem ela pode desencadear-se frustrações e ansiedade.

 

A “mãe suficientemente boa” na teoria de Winnicott (1896-1971)

Winnicott afirmou que cada ser humano traz um potencial inato para amadurecer, para se integrar. O fato dessa tendência ser inata, não garante, contudo, que esse amadurecimento e integração aconteçam, porque dependerão de um ambiente facilitador que forneça os cuidados que se tornam necessários. Daí a importância e necessidade do que chamou deuma “mãe suficientemente boa”.

Na exposição de sua teoria Winnicott diz que essa mãe é aquela ou aquele (pode até ser a própria mãe ou o pai) que está disponível ao bebê, de maneira amorosa e interessada por ele. A mãe, no caso, sente, intuitivamente, que deve estar mais próxima do bebê e sabe que precisa estar presente, mas que também precisa afastar-se dele, pouco a pouco, a fim de colaborar no aprimoramento do seu desenvolvimento.

É importante ressaltar que o valor nesse relacionamento está na qualidade das ações, capazes de contribuir para que a criança aprenda a confiar ou não, no futuro, nas autoridades e instituições. Desta forma, a criança virá a ter um caráter bem formado. Winnicott chama desta que é preciso levar em consideração “toda a atenção” da mãe quanto às necessidades básicas do filho, entre elas a alimentação, a higiene, o acalento, o afeto ou mesmo no simples contato sem atividades específicas.

Winnicott ainda nos chama a atenção para o fato de que o sentimento de culpa gerado na criança, não resulta de sentimentos religiosos ou morais, não é algo a ser inculcado, mas surge de um aspecto importante do desenvolvimento da criança que, ao nascer, não é boa nem má, mas que depende de sua relação com a mãe. Dependendo das relações boas ou más, a criança então poderá vir a ser um neurótico, um sociopata, um psicopata, entre outros. Isto significa que o desenvolvimento do sentimento de culpa depende sempre do tipo de “mãe suficientemente boa” ou não que venha a ter a criança.

A teoria do apego

Como vimos algo acima, esta teoria, de autoria de John Bowlby, ocupa-se do estudo sobre o modo como as crianças reagem à perda temporária da mãe. Bowlby dedicou especial atenção às observações de James Robertson (1971) ao estudar os problemas dos efeitos da separação da  mãe nos primeiros anos de vida em relação à formação do caráter e ao desenvolvimento da personalidade. Percebeu que a perda da mãe, por qualquer motivo, poderia gerar respostas e processos de maior interesse para a psicopatologia. Relacionou essas respostas e processos com as que estão presentes em pessoas adultas e que ainda continuam perturbadas por separações que sofreram nos primeiros anos da infância.

Robertson observou que a separação da mãe sempre é acompanhada de tristeza, aflição, raiva e angústia no dia-a-dia da criança. Já em 1953, fez observações sobre crianças de dois ou três anos de idade que estavam em creches residenciais ou enfermarias de hospitais, separadas da figura materna ou de mães substitutas e sem convívio em ambiente familiar.

Robertson identificou três fases vivenciadas pela criança nessa condição. A primeira, é o que ele chamou de  “fase de protesto”; este é o momento no qual a criança luta de todas as formas para reencontrar a mãe; nesta fase ela chora intensamente e se apega a quem possa representar a figura materna. A segunda, é a “fase do desespero”, na qual o comportamento infantil sugere desesperança; é quando os movimentos físicos ativos diminuem ou cessam, e a criança começa  a choramingar de maneira intermitente. A “fase de recuperação” é a ultima identificada por Robertson. Nessa fase a criança apresenta uma aparente melhora; é quando volta a se relacionar com o mundo real; volta a brincar, a sorrir, e se torna mais sociável. Se a mãe reaparece, contudo, percebe-se que ainda tudo não está tão bem como era de se esperar. Isso porque a mãe já não é recebida com o entusiasmo de antes; mantém-se distante, apática, indiferente, já sem lágrimas!

De maneira prática, todavia, com pequenas diferenças entre os que a defendem, a teoria do apego identifica situações comuns presentes no comportamento infantil: fuga para a mãe como refúgio seguro diante de um perigo iminente. Quando uma criança se sente ameaçada, geralmente procura imediatamente a mãe, em vez de ir ao encontro de qualquer outra pessoa. O choro diferencial pelo afastamento da mãe é outra prática comum entre as crianças. Essa experiência é comum quando a mãe, ao afastar-se, a criança chora, de maneira muito sentida. O sorriso diferencial para estímulos visuais é um outro exemplo expressivo. Geralmente isso se dá quando o bebê vê sua mãe chegar, depois de um período de afastamento. Ela expõe um sorriso mais aberto acompanhado de movimentos de braços e pernas.

Em síntese, esta teoria mostra uma nova dimensão para a compreensão da natureza humana e sobre a origem dos vínculos afetivos. Ao mesmo tempo, mostra que a manutenção do vínculo bebê e mãe é fundamental em relação à sua ligação emocional, para orientar o desenvolvimento afetivo, cognitivo e social durante a infância.

 

Avaliando a importância da função materna

Como vimos até aqui, as teorias do desenvolvimento emocional da criança, apontam para situações em que o vínculo com a mãe é fundamental para o desenvolvimento infantil e projeções que se possa fazer em relação ao futuro do indivíduo. Há aspectos na relação mãe-filho que devem ser considerados responsavelmente, conforme se percebe em todas as teorias do desenvolvimento da criança. Atividades de cuidado como a amamentação materna, é fundamental, não só para a alimentação da criança como para o desenvolvimento de laços afetivos que são muito importantes para a segurança e bem-estar do indivíduo não só como bebê, mas também em fases posteriores da vida. O banho da criança é outro momento que deve ser valorizado. É o momento em que a criança revive o período intra-uterino, de nove meses, imerso em um ambiente líquido, prazeroso; nesse momento a criança pode ser acariciada, sentir o próprio corpo e ao mesmo tempo aprender que pertence a alguém, o que lhe dá uma certa segurança.

Outros cuidados especificamente maternos são importantes para o desenvolvimento emocional e cognitivo da criança: ações como afagar, cantar, falar, brincar com o bebê estabelecem uma relação íntima entre mãe e filho; são práticas que geram sensações semelhantes às do período de gestação no útero da mãe e que favorecem a adaptação da criança ao novo ambiente onde se encontra, isto é, fora do útero.

Uma vez garantida a relação mãe-filho nos primeiros anos de vida, podemos dizer que a criança pode vir a superar o “trauma do nascimento” (Rank), encontrar uma mãe que signifique para o seu desenvolvimento o “seio bom” (M. Klein) ou uma “mãe suficientemente boa” (Winnicott), conquistas que responderiam às demandas da “teoria do apego” (Bowlby).

 

A mãe presente-ausente

Não podemos deixar de reconhecer que há mães que nunca se separam fisicamente de seus filhos e, apesar disso, não conseguem transmitir afeto, amor, segurança para eles. São as mães que em nada colaboram para minorar a situação do trauma do nascimento, aprofundando-o, inclusive. São as que alimentam os filhos com gritos, agressões, violências, relacionando-se com eles de maneira indiferente, grotesca.

Há situações em que mães e pais, rejeitam filhos antes mesmo do nascimento. Quando a futura mãe rejeita a gravidez por questões econômicas e profissionais e não consegue evitar o nascimento da criança; ou ainda com o temor de ser destruída pela gestação indesejada. Também quando os pais alimentam expectativas equivocadas em relação ao filho que vai nascer e se sentem frustrados em suas aspirações, ou mesmo por não desejarem filhos em seu casamento.

A má vontade da mãe ou do pai nessas condições tem comprometido o desenvolvimento das crianças. Como foi constatado em diversas experiências realizadas por Bowlby e outros, a criança não bem acolhida, rejeitada, não amada, corre o risco de se tornar vítima de transtornos do ego, dependência excessiva, caráter delituoso e estado depressivo na vida adulta.

Há um aspecto também determinante da situação de mãe presente-ausente. Está relacionado ao tipo de identificação que a mulher teve com a própria mãe em seu desenvolvimento quando criança. No caso dessa identificação ter sido negativa, castradora, sem afeto, grosseira, a tendência dessa mulher, quando mãe, é reproduzir o mesmo tipo de relacionamento. Pois a figura materna com ou sem afeto, é sempre modelo para sua nova experiência. É assim que as experiências anteriores cumprem o papel de subsidiar o processo de aprendizagem da maternidade e da qualidade na interação mãe-filho, qualificando de maneira positiva ou negativa o desenvolvimento infantil.

 

A importância da mãe na tradição bíblica

Nas culturas antigas, de modo geral, a maternidade sempre foi considerada como uma das glórias da mulher e uma das experiências mais profundas de amor entre os seres humanos. Apesar da mulher ser considerada um ser secundário e destinada à felicidade do homem, a maternidade em si faz o diferencial nessa relação. É na maternidade e no cuidado dos filhos que a mulher se realiza.

Na literatura do Antigo e do Novo Testamento, o maior desejo de uma mulher era tornar-se mãe. Há exemplos significativos de mulheres, no período patriarcal, que sofreram muito diante da possibilidade de não vir a ter um filho. Foi o caso de Sara, esposa de Abraão, que em idade avançada deu à luz seu filho, já em idade avançada; de igual modo lembramos o sofrimento de Ana, uma das duas esposas de Elcana, que sentia-se humilhada diante da outra esposa de seu marido, que a atormentava porque não tinha filhos. De Ana nasceu Samuel, que consagrou o seu filho a Deus como gesto de gratidão pelo livramento.  Muitos outros casos poderiam ser citados. Na verdade, ser mãe e cuidar dos filhos, significava muito nessa tradição. No contexto do Novo Testamento, a mulher-mãe, é a bem-aventurada entre os seres humanos, e Maria, mãe de Jesus, em especial, é a “bendita entre as mulheres” e “bendito é o fruto do seu ventre”.

No Novo Testamento, em especial, durante o ministério de Jesus, a mulher deixa de ser apenas simples meio para produção da vida, produzindo filhos, e passa ser vista, no exercício da maternidade, como o protótipo de entrega generosa, como o dom de si mesma a Deus.

É verdade que o cristianismo, em suas várias versões, mesmo reconhecendo o valor ou libertação da mulher, muitas vezes tem reduzido sua ação aos limites do lar e à missão maternal. Os mais conservadores chegam mesmo a responsabilizar a mulher pelos desmandos da sociedade em nosso tempo. São os que dizem que o lugar da mulher é no lar, cuidando materialmente dos filhos e de sua educação.

 

Considerações finais

Embora à mulher seja atribuída vocação maternal, no mundo atual essa função deve e pode ser compartilhada. O “seio bom” ou “seio mau”, ou ainda a “mãe suficientemente boa”, não é uma exclusividade apenas da mãe biológica. Ela pode ser exercida pela mãe biológica ou por quem a represente em momentos marcantes da vida do indivíduo, em especial durante o desenvolvimento infantil. Está aberta em nosso mundo a oportunidade para homens e mulheres, juntos, em cumplicidade, darem sua contribuição para o bem-estar da criança, do seu nascimento à sua vida adulta.

O que vale não é a maternidade localizada apenas na mulher, embora esta tenha um papel fundamental no desenvolvimento infantil. Mas não podemos deixar de considerar que é relevante que se reconheça como fundamental o espírito maternal e paternal, que deve ser compartilhado entre homens e mulheres, tendo em vista o bem comum ao lado dos filhos.

Também a sociedade em geral, independentemente do papel essencial da mãe e da cumplicidade do pai, deve desenvolver práticas efetivas e afetivas que se traduzam em respeito, acolhimento, gestos de boa vontade pela criança em seu processo de desenvolvimento em todos os seus níveis. Isso também é exercício de maternidade e paternidade responsáveis, num mundo que tem perdido o respeito pelo ser humano. 

 

 

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